quinta-feira, 27 de março de 2014

Medicina dos Afectos, René Descartes

Boa noite, pessoal! Como vocês estão? Deixa eu me apresentar... Sou Marcella, estudante de Letras, com muito interesse nos assuntos da vida, afinal, o que melhor do que saber como ela é e tentar explicá-la? Esse interesse me levou a cursar uma disciplina diferente da minha área de concentração e... Cá estou!
      Como disse anteriormente, quero poder entender a vida, ou ao menos tentar, e partir do começo seria bastante esclarecedor, não é mesmo? Então porque não começar falando sobre alma, mente e corpo? Exatamente este o texto que meu professor passou essa semana para que refletíssemos.  Bom, primeiramente, o texto é de René Descartes (se você é daquele que muito ouviu o nome, mas nunca soube de quem se tratava, vem cá dá uma olhadinha na Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes) correspondendo-se com a Princesa Elisabeth da Boêmia (vem cá saber também: http://en.wikipedia.org/wiki/Elisabeth_of_the_Palatinate). Nessas cartas, a princesa questionava Descartes sobre o que seria a alma.  

Hoje, o senhor Pollot deu-me tanta segurança de vossa bondade em relação às pessoas e, particularmente, em relação a mim, que afastei qualquer outra consideração do espírito, salvo as que me dão algum proveito, ao pedir-vos que me digais como é que a alma do homem (sendo uma mera substância pensante) pode determinar os espíritos do corpo a fazer as acções voluntárias.

Bom, mesmo com essa linguagem bem difícil, podemos extrair que a princesa não acreditar ser possível uma substância imaterial agir sobre a matéria. E é exatamente isso que Descartes vai tentar mostrar à princesa durante todas as suas correspondências, inclusive utilizará de meios matemáticos e físicos para provar a sua teoria.
Diferentemente da crença da época, Descartes acreditava que alma e corpo eram duas coisas distintas e alma tinha efeito sim sobre o corpo. Quando ele disse pela primeira vez, em uma das cartas à princesa, que reconhecia que o corpo podia instigar sentimentos a alma, mas que a própria alma sozinha podia ter grandes efeitos sobre a vontade do corpo, a princesa simplesmente duvidou de suas palavras. Porém, aos poucos e com argumentos sólidos, Descartes vai conseguindo mostrar-se certo para a princesa. Em certa ocasião, Descartes descobre que a princesa está doente e mostra-se preocupado e caridoso, assim como em todas as suas cartas (tal devoção me deixa cismada se ali havia só amizade mesmo) e ela lhe responde dizendo que sente-se fraca, pois seu corpo não aguenta mais a pressão de seu dia-a-dia. Neste momento teremos então a grande sacada de Descartes, ele conseguirá convencer a moça de que se ela manter a paz de espírito, achando beleza nas pequenas coisas do cotidiano (os argumentos dele são totalmente “Poliana” mesmo), tirar alguns momentos para a meditação e manter sempre a razão à frente do rebuliço de sentimentos, ela terá uma vida mais plena e uma saúde melhor.  

Mas parece-me que a grande diferença entre as almas maiores e as que são baixas e vulgares, consiste principalmente no facto de as almas vulgares se deixarem levar pelas suas paixões e de serem felizes ou infelizes apenas conforme as coisas que lhe acontecem são agradáveis ou desagradáveis; ao passo que as outras têm raciocínios tão fortes e tão poderosos que, embora também tenham paixões e muitas vezes até mais violentas que as do comum, a sua razão permanece, todavia, sempre a mestra e faz com que as próprias aflições as sirvam e contribuam para a perfeita felicidade que já gozam nessa vida.

Resumo da ópera: se você é sentimentalista, você é patético (como diz Vygotsky, em “A Educação Estética”), mas se você é racional e realista, aí sim você é uma alma elevada. Não que a gente precise concordar com isso, claro. Estamos no século 21, vale lembrar, e Descartes é beeem mais velhinho que a gente (1596 - 1650). Bom, daí em diante a princesa realmente vai vendo que ao ter o controle de seus pensamentos e sentimentos, ela consegue se sentir melhor, a saúde dela fica mais estável e então temos o fim das cartas (gostaria de saber o motivo!).
Enfim, acho que a conclusão que eu cheguei sobre “Medicina dos Afectos” foi que se você souber controlar a sua alma, estabilizá-la, manter-se são e acreditar, você verá melhorias significativas ao seu corpo e em eventuais enfermidades. O importante é saber controlar a mente e a alma. Você sabe como fazer isso? Você acha que controla a sua? Deixa o seu comentário aí então pra gente saber!
Até semana que vem, gente! Beijos!


Obs: Eu fiquei EXTREMAMENTE curiosa para saber se essas cartas foram reais ou se Descartes tinha uma síndrome meio Fernando Pessoa e escrevia cartas entre seus heterônimos (que todos eram ele mesmo, no final das contas, com ressalvas), fui atrás de saber sobre isso. Se você sabe ou não se importa de tentar ler em inglês aqui vai um link que fala sobre o papel dela nas cartas: http://plato.stanford.edu/entries/elisabeth-bohemia/).
Obs²: O link do texto inteiro você acha aqui: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sitessrcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxpbnRyb2R1Y2FvcHNpfGd4OjM2Mjg5MDQ2OTI3ODRlMjY e caso você esteja interessado em adquirir o exemplar completo: CARDOSO, A. FERREIRA, M.L.R. (2001) Medicina dos Afetos. Correspondências entre Descartes e a Princesa Elizabeth da Boêmia. Lisboa: Editora CFUL/Celta Editora.

Obs³: Muito interessante saber que vários desses pensadores, filósofos, escritores, sociólogos que estudamos tiveram papeis importantes nas cortes reais.